quinta-feira, 15 de novembro de 2007
Viver sem carne - uma escolha saudável para as crianças
Organizações de saúde de renome aprovam uma dieta vegetariana equilibrada, tão saudável em termos médicos como uma convencional dieta carnívora para crianças.
Em qualquer fase da sua vida, as crianças têm necessidade de uma dieta bem equilibrada e são especialmente vulneráveis a carências nutricionais. De forma a assegurar um desenvolvimento saudável durante a fase pré-natal, a infância e a adolescência, há determinados nutrientes que devem ser obtidos através da comida. Estes nutrientes, entre outros, proteínas, cálcio, vitaminas e ferro, são necessários ao desenvolvimento do sistema nervoso, cuja falta pode levar a graves falhas das capacidades motoras e cognitivas. O rápido crescimento infantil requer quantidades adicionais de calorias e nutrientes.
Em "Nutritional risks of vegan diets", Dwyer e Loew sublinham que, para evitar uma má nutrição, as crianças em fase pré-natal, na infância e na adolescência, precisam de "mais nutrientes por quilocaloria de comida ingerida" ou, por outras palavras, de comida altamente nutritiva. (59)
Depois de longos anos de constantes discussões acerca da inferioridade das proteínas animais, o "Dietary guidelines" de 2005 da USDA, confirma, explicitamente, a suficiência de uma ingestão adequada de proteínas vegetais. (Maurer 39)
Se as crianças não receberem proteínas animais através do consumo de ovos e lacticínios, deverão comer uma ampla variedade de legumes, frutos secos, sementes e cereais integrais. Deste modo, os seus corpos receberão proteínas suficientes para produzir, restaurar e sustentar as células.
Em "Vegan children", C. Coughlin acrescenta que as sementes e os frutos secos não só fornecem as proteínas e minerais necessários às crianças, mas também fornecem a grande quantidade calórica necessária ao seu desenvolvimento.(2)
Embora as plantas disponibilizem as proteínas, elas não podem fornecer a vitamina B12. Sendo um nutriente importantíssimo na constituição do corpo humano, uma deficiência desta vitamina pode causar danos muito graves no sistema nervoso. Uma vez que é somente produzida no sistema digestivo dos animais, as crianças vegetarianas devem obtê-la através do consumo de produtos lácteos ou ovos. (Maurer 102). Os veganos, por outro lado, têm que tomar suplementos vitamínicos ou comida com adição de vitamina B12, tal como bebidas multi-vitaminadas, que costumam ser do agrado das crianças. (Coughlin 4)
O ferro é outro nutriente indispensável e responsável pelo transporte de oxigénio. Apesar da biodisponibilidade do ferro ser mais alta na carne - o que significa que é mais facilmente absorvido - muitos vegetais são abundantemente ricos em ferro. (Wisely 6) N. Barnard e K. Kieswer advertem, no seu trabalho "Vegetarianism, the healthy alternative", que o consumo de carne vermelha causa, muito facilmente, um excesso de ferro, o que catalisa a configuração de radicais livres. Estes compostos altamente instáveis e reactivos podem causar danos celulares, vulgarmente conhecidos como cancro. (49)
Consequentemente, se as crianças vegetarianas retiram a sua quantidade necessária de ferro das plantas de folha verde, frutas, legumes e leguminosas (grão, feijão, etc), os seus corpos demoram mais tempo a absorver o ferro das plantas mas, ao mesmo tempo, reduz a sobrecarga de ferro e o risco de cancro. Contudo, como a anemia por falta de ferro é o problema de saúde mais comum em bebés e crianças nos E.U.A., vegetarianos ou carnívoros, Dwyer e Loew propõem que se tenha um cuidado especial com a ingestão de ferro por parte de bebés e crianças pequenas e, se necessário, fornecer-lhes suplementos de ferro ou comida fortificada com adição de ferro. (64-65)
Em alternativa, as crianças podem aumentar a sua absorção de ferro com bebidas ricas em vitamina C, ou alimentos como sumo de laranja, melancia ou pimentão-doce (paprika).Em contraste com as deficiências de ferro, as deficiências em cálcio são muito pouco prováveis em crianças vegetarianas. Para além dos produtos lácteos, uma grande variedade de alimentos como brócolos, sementes de girassol, vegetais de folha verde, frutas e feijões, fornecem perfeitamente este mineral, de acordo com M. Wisely em "Raising a vegan child"(5). Isto significa que as crianças com uma dieta à base de plantas recebem cálcio suficiente para o desenvolvimento de ossos e dentes fortes. Maurer acrescenta que os vegetarianos têm reservas de cálcio superiores às dos carnívoros, devido à falta ou diminuição das quantidades de proteínas animais (51).
Uma vez que o cálcio é responsável pelo regulamento da tensão arterial e pelos movimentos musculares, uma disponibilidade aumentada de cálcio parece melhorar a saúde de uma criança tanto num futuro próximo como distante.
Já que é evidente que uma dieta vegetariana equilibrada fornece todos os nutrientes necessários a uma criança, põe-se uma outra questão: Poderá uma dieta sem carne funcionar como factor preventivo e/ou paliativo em doenças? Poderá a exclusão de carne levar à diminuição de doenças graves?
Um número substancial de investigações científicas demonstra, sem sombras de dúvida, a acção preventiva de uma dieta baseada em alimentos vegetais. Por outro lado, é um facto bastante conhecido de que as grandes quantidades de gordura, gordura saturada e colesterol da carne e produtos lácteos estão associadas ao aumento de doenças coronárias, cancro, obesidade, acidentes cardio-vasculares, e diabetes tipo 2. A sobrecarga de proteína animal pode, também, levar à osteoporose e à insuficiência renal (falha dos rins), em contraste com as proteínas vegetais, que diminuem o risco de perda de densidade óssea, conservando melhor o cálcio nos ossos (Barnard e Kieswer 52). Dwyer e Loew chamam a atenção para a correlação existente entre a quantidade de proteína animal ingerida na infância e a densidade óssea que se tem décadas depois (64).
Tendo 65% da população norte-americana problemas de excesso de peso ou obesidade, as crianças sofrem com a gordura, o que leva à obesidade, diabetes, ataques cardíacos e insuficiência renal. Dietas vegetarianas com grandes quantidades de fibra e hidratos de carbono parecem contribuir para uma diminuição de peso, por conservarem menos de 50% das chamadas calorias gordas, não tendo as crianças que passar por curas de fome intermináveis e diminuindo o risco de diabetes tipo 2 e hipertensão (Barnard e Kieswer 51,54). As dietas à base de plantas também impedem que as crianças apanhem infecções por carne contaminada como a BSE/Doença de Creutzfeldt-Jacob, salmonela, ou infecções do cólon pela bactéria escherichia coli, (e. coli - responsável por algumas formas de gastroenterite), que podem provocar infecções muito graves ou mesmo fatais. Além disso, as crianças que comem carne adquirem resistência aos fármacos, devido ao excesso de antibióticos aplicados aos animais para criados para abate. Acrescenta-se o facto de cada vez haver mais estudos que demonstram o contributo de uma dieta vegetariana na prevenção de alguns tipos de cancro, revelando números de taxas de mortalidade até 76% mais baixos do que a restante população Barnard e Kiewer 47). Estas estatísticas impressionantes estão associadas a uma dieta sem carne, mas também à ingestão de antioxidantes obtidos através dos alimentos vegetais, que previnem ou reduzem a formação de radicais livres. Isto significa que as crianças que tenham uma dieta à base de plantas reduzem enormemente o risco de virem a sofrer de cancro.
No seu livro "Vegetarians and Vegans in America today", K. e M. Iacobbo documentam, ainda, efeitos paliativos ou a reversão de efeitos em certas doenças crónicas, após iniciarem dietas vegetarianas (77). Crianças com esclerose múltipla e diabetes tipo 2 podem abrandar a progressão da doença ou mesmo melhorar a sua condição médica com uma dieta pobre em gorduras baseada quase exclusivamente em produtos de plantas. Uma dieta sem carne não só produz efeitos na condição física e no bem-estar da criança, mas também tem impacto no desenvolvimento psicológico, social, intelectual e espiritual da pessoa.
Enquanto que os adultos se tornam vegetarianos por razões de saúde, as crianças e adolescentes parecem preocupar-se mais com os direitos dos animais e com o bem estar deles. Preocupam-se também com os efeitos sobre o ambiente e com a fome a nível mundial. Tudo isto se junta ao pensamento de viver em uníssono com a natureza, o que, por sua vez, gera crianças mais graciosas e menos agressivas (Maurer 71). Esta paz e harmonia com o mundo dá à criança vegetariana um sentimento positivo acerca de si mesma e contribui para uma abordagem holística. Os Iacobbos chamam a isto o "poder positivo transformador" da dieta vegetariana no corpo e na alma, não só tornando possível que os seres humanos vivam uma vida compassiva, mas também a permitir-lhes grandes feitos em termos de performance e endurance em atletismo (73-80). Crianças ou adolescentes que pretendam seguir uma carreira em atletismo só têm a beneficiar com uma dieta vegetariana seguida desde a primeira infância.
Provas científicas têm demonstrado que uma dieta vegetariana baseada em fruta fresca, vegetais e cereais integrais cobre perfeitamente todas as necessidades nutricionais das crianças. As crianças vegetarianas podem obter as quantidades adequadas de proteínas essenciais, vitaminas e minerais através do consumo de produtos de plantas e lacticínios. Se os pais tiverem o cuidado de lhes oferecer uma dieta vegetariana bem planeada, com as quantidades adequadas de nutrientes, as crianças podem gozar de uma vida equilibrada e saudável. As dietas à base de plantas também dão boa saúde por conterem menos gordura saturada e colesterol e mais fibra e antioxidantes do que as dietas à base de carne. Ao ingerirem fibra e antioxidantes quando comem frutos, vegetais, cereais integrais e grãos, as crianças reduzem os riscos de certas doenças e condições degenerativas e, ainda mais, as crianças vegetarianas têm a oportunidade de atingir níveis superiores desportivos.
O seu compromisso ético para com os animais e o ambiente não só beneficia toda a humanidade como a eles mesmos.
Fontes: - Barnard, Neal and Kristine Kieswer, "Vegetarianism: The Healthy Alternative." Food For Thought. Ed. Steve F. Sapontzis. Amherst, New York: Prometheus Books, 2004. 46-56.- Coughlin, Carol M., "Vegan Children." Vegetarian Nutrition. Gale Group. 30 Mar. 2007 http://www.andrews.edu/NUFS/Vegan%20Children.html .- Dwyer, Johanna T. and Franklin M. Loew. "Nutritional Risks of Vegan Diets." Food For Thought.Ed. Steve F. Sapontzis. Amherst, New York: Prometheus Books, 2004. 57-67. - Iacobbo, Karen and Michael. Vegetarians and Vegans in America Today. Westport: Praeger Publishers, 2006.- Maurer, Donna. Vegetarianism: Movement or Moment. Philadelphia: Temple Univ. Press, 2002.- Sapontzis, Steve F., ed. Food for Thought. Amherst, New York: Prometheus Books, 2004.- Wilson, Melanie. "Raising a Vegetarian Child." La Leche League International July–August 2000. Gale Group. 30 Mar. 2007 http://www.lalecheleague.org/NB/NBJulAug00p131.html. Referências:SCHALLER, Monica, Meatless, a healthy choice for children. (Tradução de Sónia Cruz)
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
Quando introduzir a dieta vegetariana na criança...
Janete Biscaino
A Organização Mundial de Saúde preconiza, para prevenção das
carências nutricionais, o aleitamento natural até os dois anos de
vida, e nos primeiros seis meses como único alimento.
Após os seis meses devemos introduzir outros alimentos, tomando
o cuidado para se evitar os “adoçamentos”, o excesso de gordura, e
o acréscimo de sal na dieta no primeiro ano de vida.
Então sob o ponto de vista nutricional, podemos iniciar com a
dieta vegetariana aos seis meses de vida. Porém as crianças
com algum risco nutricional devem retardar a introdução da dieta
vegetariana, pois nos primeiros dois anos de vida há um
aumento das necessidades de nutrientes, e deficiências poderão
comprometer o crescimento e desenvolvimento da criança. Daí
fazer necessária, a avaliação cuidadosa por parte do pediatra da
criança, quanto à possibilidade de introduzir a dieta vegetariana e o
melhor momento para a introduzi-la. E é essencial a correta e
adequada substituição dos alimentos restringidos, devendo,
sempre, ser supervisionada por um médico e/ou nutricionista.
O que muda na dieta vegetariana de criança com relação à do
adulto vegetariano...
Para suprir as necessidades do crescimento deve conter:
-maior teor de calorias
-maior teor de nutrientes
-menor teor de fibras
Como substituir a carne com relação às proteínas...
As principais fontes são:
Com o ovo. A Sociedade Brasileira de Pediatria está liberando
o ovo inteiro a partir dos seis meses de idade, de forma livre, para
àquelas crianças que não têm outra fonte de proteína. Porém o ovo
é um alimento que pode provocar alergia. Então cuidado especial
nas famílias de alérgicos, pois as piores alergias alimentares são
por alimentos expostos desde a infância.
As algas marinhas são excelentes fontes de proteínas, minerais,
vitaminas e ricas em fibras de boa qualidade. Podem ser picadas
bem pequenininhas e colocadas na sopinha do bebê, ou como
“mistura” para crianças maiores.
Os cogumelos também são excelentes fontes de aminoácidos,
assim como de minerais, vitaminas do complexo B; inclusive de
vitaminas B12. Os cogumelos do tipo “shitake” e o “shimeji” são mais
ricos em nutrientes e facilmente encontrados no mercado.
O espinafre japonês é considerado “o rei dos vegetais” por conter
seqüência de aminoácidos semelhante à da proteína animal. Exige
um preparo especial para o consumo e tem limite da quantidade
de ingestão por dia.
Leite de vaca e seus derivados.A Organização Mundial da Saúde
“contra-indica a utilização do leite de vaca em crianças com menos
de um ano”, pois sua composição é inadequada contribuindo para
carências, além de provocar outros transtornos. Portanto, no
primeiro ano de vida na impossibilidade de aleitamento materno
ou na necessidade de complementação, deve-se introduzir as
fórmulas infantis existentes no mercado, geralmente são à base de
leite de vaca ou a base de soja.
Os derivados da soja (tofu, proteína texturizada de soja, natô)
também são boa fonte de proteína, além de cálcio e ferro. As
hidrolisadas de soja só podem ser oferecidas após o primeiro ano
de vida, antes disso somente as fórmulas infantis a base de soja.
As leguminosas, cereais e sementes podem contribuir como fonte
de aminoácidos.
Alguns estudiosos da dieta vegetariana recomendam para
assegurar o crescimento da criança vegetariana, um acréscimo
protéico de 35% sobre a recomendação habitual. Exemplificando:
uma criança com necessidade protéica de “x” deverá receber com
a dieta vegetariana um aporte protéico de “x+0,35x”.
O mel também está contra-indicado no primeiro ano de
vida...
Por facilitar a contaminação por uma bactéria, que produz a toxina
botulínica.
Os alimentos fortificados e enriquecidos...
Podem contribuir para a suplementação de alguns nutrientes
Suplementação...
Para os vegetarianos,
Há um consenso da necessidade de suplementação de vitamina
B12 para vegetarianas gestantes, lactantes e lactentes que não
estejam no aleitamento materno exclusivo (ou seja, nos primeiros
seis meses de vida, desde que a mãe que amamenta esteja
recebendo a suplementação recomendada). As recomendações da
vitamina B12 para gestantes e mães que estão amamentando e
para as crianças por faixa etária estão disponíveis no site da
Sociedade Vegetariana Brasileira.
Atenção especial para o ferro, zinco, cálcio.
Na gestante,
A suplementação do ácido fólico na prevenção da malformação no
tubo neural se faz nos primeiros três meses de gravidez ou,
preferencialmente iniciar três meses antes de engravidar.
A necessidade de suplementar ferro dependerá dos níveis da
reserva de ferro.
No bebê,
É obrigatória a suplementação de ferro até um ano de vida, nos
bebês prematuros e naqueles que nascem com baixo peso ao
nascimento (menor ou igual à 2500g).
A suplementação de vitamina A e D se faz até um a dois anos de
idade. A exposição ao sol ou à luz solar, de aproximadamente
quinze minutos ao dia, é importante para a ativação de vitamina D.
Uma atenção especial ao o quê e quanto de alimentos a
criança aceita.
A capacidade de digestão e assimilação assim como as
necessidades de nutrientes são individuais.
Dra. Janete
Viudes Biscaino
CRM: 55873
Janeiro / 2006
Bibliografia:
“Manual das Necessidades Nutricionais Humanas da FAO e OMS”.
– Editora Atheneu, 2003.
“Manual do Departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira
de Pediatria” de 2005, 2006.
“Ciências Nutricionais” – Editora Savier, 1998 – Autores: J. E.Dutra
de Oliveira e J. Sérgio Marchini.
“Alimentos Aspectos Energéticos – de Ysao Yamamura - Editora
Triom, 2001.
“Folhetos – Departamento científico” da Sociedade Vegetariana
Brasileira.
Sugestões para leitura:
“Dieta Vegetariana para pais e filhos – O médico responde” de
Charles R. Attwood, M.D., F.A.A.P. – Editora Madras.
“A Dieta Saudável dos Vegetais – O guia completo para uma nova
alimentação” – Editora Campus – Autores: Vesanta Melina, Brenda
Davis e Victória Harrison.
“Guia de Alimentação Infantil – com dicas de cuidados para crianças
especiais” – de Nana Guimarães – Editora Ground.
terça-feira, 6 de novembro de 2007
Crianças vegetarianas - Guia Vegano - Parte I
Ou seja, como mãe, ando perdendo de 3 a 2.
Mas, como hoje em dia todos são fisicamente saudáveis (e meu lado coruja diria: belíssimos), acho que não errei tanto assim, pelo menos na parte nutricional. E é disso que vou tratar.
Quando digo que criei meus filhos sem carne, é comum ser crivada de perguntas: e as crianças não ficaram desnutridas? fracas? doentes? sem proteína? Claro que não. Como não canso de repetir, além de nociva ao organismo humano a carne é desnecessária. Só entendo seu consumo em caso de total privação de alimentos vegetais — no inverno da Groenlândia, do Alasca ou da Sibéria, por exemplo — e, mesmo assim, como alimento de emergência.
Logo, acredito que nenhuma criança precisa de carne.
Pior ainda quando digo que criei meus filhos sem lhes dar açúcar. Coitadinhos! Nem uma balinha? Não. Nem um bolinho de aniversário? Bolo de aniversário sim, mas de mel (não sou vegana, lembram?) ou de açúcar mascavo. Nem um ovinho de Páscoa? Bom, ganhavam na escola, minha mãe também lhes dava imensos ovos de bom chocolate, mas ficavam na geladeira e iam sendo comidos aos poucos.
Criança nenhuma precisa de carne e de açúcar refinado. Essas coisas não são alimento.
Bom, depois desta introdução meio sem fôlego, vou entrar nos detalhes. Tratarei hoje de como alimentei meus filhos quando bebês.
Como conselho preliminar, recomendo que, antes da criança nascer, procurem um pediatra que seja bem informado e conheça bem a nutrição vegetariana. Isso evitará atritos e permitirá uma atenção melhor aos problemas que surgirem com a criança, sem a desculpa boba “ah, ela está assim porque não come carne”.
Durante os primeiros seis meses, amamentei meus filhos (com exceção da mais velha, coitadinha; na época, eu ainda acreditava em pediatras alopáticos tradicionais e o que me atendia recomendou-me “complementar” a amamentação com leite em pó porque meu leite devia estar “fraco”, já que ela era muito magrinha — e olhem que isso foi antes de eu mudar minha alimentação, ou seja, eu comia carne três vezes por dia!).
Não acreditem nessa bobagem de “leite fraco”. Leite fraco não existe. Quando a mãe não se alimenta bem, o corpo tira de si mesmo tudo o que é preciso para que a criança seja bem nutrida; tira gordura dos tecidos, proteína dos músculos, cálcio dos ossos e dentes e mantém o leite completo. A mãe tem de estar num nível muito alto de desnutrição para seu leite ficar “fraco”.
Mesmo quando tive de voltar a trabalhar antes do bebê completar seis meses, não parei de amamentar. Acrescentei, antes dos seis meses mas sempre a partir do quarto mês, frutas: banana amassada, maçã e pera raladas, mamão amassadinho (mais ou menos nesta ordem). Tive a sorte de encontrar uma ama de leite maravilhosa para cuidar de uma de minhas filhas quando precisei voltar a trabalhar e ela estava só com dois meses.
A partir dos seis meses, além da fruta, acrescentava cereais integrais (arroz, aveia ) muito bem cozidos — no caso do arroz e da aveia em grão, de quatro a cinco horas de cozimento em fogo muito baixo e com bastante água. Ah! Sem sal. Juntava, um a cada refeição, legumes picadinhos como cenoura, chuchu, batata-baroa (mandioquinha), inhame, abóbora. Ou então até mesmo banana ou maçã. Passava tudo na peneira, para não ficar “lisinho” demais. Se não tinha paciência ou tempo, usava o liquidificador, mas sempre amassava uma parte na peneira ou no garfo porque acho que a criança precisa se acostumar com a textura. Lisinho já basta o leite.
Lá pelos sete meses, passava a dar leguminosas, de preferência lentilha, cozida junto com o arroz ou em separado. Entre os feijões, escolhia o azuki, de grão pequenino e fácil de digerir. Também usava ervilha. Feijão preto e de cores eu dava mais tarde, lá pelos nove meses.
Também nesta época, entre os sete e os nove meses, começava a juntar verduras de folha à sopinha: couve, agrião, alface, espinafre, bertalha. Não costumava dar chicória, que é amarga e poucas crianças gostam. E colocava um pouco de azeite na sopa. Eu usava azeite cru; algumas gotas misturadas na sopa. Mas não fazia isso em todas as refeições nem todos os dias.
Ah! Enriquecia as sopinhas com suco de salsa crua: lavava bem, passava na peneira, misturava o suquinho com a sopa. É muito rico em vitamina C e sais minerais. Dá para fazer com outras folhas também, como coentro; já do agrião cru, muito rico e picante, as crianças não costumam gostar. E oferecia, entre as refeições, suquinho de laranja-lima, puro ou misturado com a papinha de fruta. Para quem tem centrífuga, suco de cenoura também é uma boa — só não exagere, porque pode deixar a criança meio amarelada! Eu fazia ralando a cenoura e espremendo num pano, mas dava trabalho demais.
Vocês podem notar que não dava ovo para os bebês. Nunca achei necessário. Crianças com mais de nove meses digerem bem o ovo. Se você se sentir mais segura, misture a gema cozida e amassada à sopinha duas vezes por semana (era o que a pediatra aconselhava e eu não seguia.)
Sempre fiz toda a comida dos meus bebês sem sal e sem açúcar. Só dei sal aos meus filhos depois de um ano e mesmo assim pouquinho (comemos muito pouco sal aqui em casa). A criança, assim, não fica com o paladar viciado.
Como a comida aqui em casa é muito simples (basicamente arroz integral cozido com água e pouco sal, feijão temperado com ervas, legumes, verduras e frutas cozidos ou crus), com um ano, quando nasciam os dentes, a criança já podia comer da nossa comida. Só o arroz eu dava uma “refervura” para ficar mais molinho até que nascessem os dentes de trás.
Tudo isso sem parar de amamentar, viu, pessoal? Só desmamei meus filhos (repito, com exceção da mais velha) por volta dos dois anos de idade.
Agora, conselhos de mãe (aceite ou não, fica a seu critério):
- Não faça cara feia quando der comida ao seu bebê. Se ele achar que você não gosta, não vai querer comer. Não pense: coitadinho, tem de comer esse troço horrível e sem sal. O troço não é horrível e você é que acha insosso, não a criança, cujo único parâmetro de comparação é o leite (aliás, dulcíssimo; leite humano é muito mais doce que leite de vaca. Se duvida, prove.)
- Se a criança não quiser comer, não se preocupe. Pular uma refeição não mata ninguém. O bebê terá mais fome na refeição seguinte.
- Se a criança nunca quer comer com a mãe, talvez seja porque prefere mamar. Aí talvez o melhor seja outra pessoa dar a comida.
- É preciso estar calmo e com vontade de dar de comer à criança. A refeição tem de ser prazerosa tanto para o bebê quanto para você! Quando a gente está estressado, irritado ou com pressa, é melhor que outra pessoa alimente o bebê. Se não houver outra pessoa, tome um chazinho, respire fundo, pense que o neném merece o melhor de você e tente esquecer os problemas nesta hora. Uma pessoa tensa deixa o bebê tenso (eles são muito mais atentos e sensíveis do que a gente pensa) e quem está tenso não consegue comer direito.
Acho que por enquanto está bom. Na próxima, falo das crianças maiorzinhas.
continua...
Crianças vegetarianas - Guia Vegano - Parte II
Bom, a criança vem crescendo e já não pode mais ser chamada de bebê. Pega comida no prato da mãe, sai com a titia, com a vovó, já-já vai para a creche, a escolinha, a casa dos amiguinhos. E aí? Como mantê-la vegetariana num mundo de creófagos?
O meu primeiro conselho é que os pais examinem-se profundamente quanto à sua certeza de que o vegetarianismo é a melhor opção — primeiro para si mesmos, depois para os filhos. Quem se propõe a educar uma criança precisa ter alguma segurança de que está fazendo o melhor para ela. Ainda que depois se mude de idéia, na hora de cada decisão é preciso tomá-la com firmeza, principalmente quando se trata de uma decisão tão importante quanto adotar hábitos alimentares diferentes — hábitos estes tão profundamente arraigados na nossa cultura que muita gente se ofende ao ver um vegetariano almoçar...
Digo tudo isso porque nós, vegetarianos, enfrentamos muita oposição quando o filho vai se largando dos nossos braços e entrando no mundo. Esta é a sina de todos os que adotam trajetórias diferentes da maioria, seja na alimentação, na religião, nos hábitos de lazer. E a gente precisa estar preparado e disposto a conviver com isso e a enfrentar as situações mais ou menos desagradáveis que com certeza acontecerão.
E aí? Como manter o filho vegetariano se a vovó, a titia, a babá, a professora, a mãe do coleguinha todas acharão um absurdo uma criança cujos pais, cruéis ou desinformados, impedem que coma carne? Afinal, o fantástico/o jornal nacional/o globo repórter mostram um médico/nutricionista/professor que diz que criança TEM de comer carne, senão fica desnutrida, senão sofre danos no cérebro, nos órgãos!
É preciso conversar com as pessoas próximas. É preciso deixar claro para elas como é importante a decisão que tomamos para nós e nossos filhos. Isso não tem receita. Cada um e cada relação que estabelecemos com cada um são diferentes. É por isso que precisamos ter segurança da decisão que tomamos, para passar esta segurança às pessoas que se relacionarão com os nossos filhos. Nem sempre será possível mandar ou conciliar. Na maioria dos casos, teremos de CONVENCER. E para convencer, é necessário estar convencido.
Depois, é preciso conversar com o próprio filho. Quando a criança começa a se relacionar com outras pessoas fora do lar ou mesmo com pessoas dentro do lar que comem de forma diferente dela, vai perguntar por quê. Mais uma razão para termos segurança da opção que fizemos. A criança precisa sentir como é importante para nós sermos vegetarianos. E isso não se consegue com palavras, só com atitudes.
E, se além de não dar carne ao seu filho, você ainda decidir não lhe dar açúcar refinado, balas, chocolates, danoninhos, biscoitinhos, quissucos, cocacolas e outras maravilhas da “alimentação” infantil, prepare-se, que o chumbo vai ser grosso. Eu que o diga.
Agora, algumas dicas práticas:
Para uma criança, qualquer criança, vegetariana ou não, é importante que a alimentação cotidiana seja rica e saborosa. Rica significa: variada, com nutrientes de todo tipo. E é importante que a comida das crianças seja suficientemente calórica. Se você usa cereais integrais, leguminosas, legumes, verduras e frutas regularmente, provavelmente será. Enriqueça as saladas dos filhos com bom azeite, castanhas ou nozes picadas, tahine (molho árabe de gergelim, muito rico em gorduras de excelente qualidade e proteínas). Sirva leguminosas variadas – feijões de várias cores, grão de bico, ervilha em grão, lentilha. Prepare os legumes com pouca ou nenhuma água (para lhes preservar o sabor), corte e cozinhe cada dia de um jeito diferente (em tirinhas, em rodelas, estrelinhas, no vapor, refogadinho com cebola ou cebolinha, no forno). Criança gosta de comida colorida e variada.
Faça-lhes também sanduíches com tahine, misso (pasta japonesa de soja fermentada, salgada, saborosa e muito nutritiva), tirinhas de cenoura crua, alface picadinho (grudarão no tahine e provavelmente não farão muita lambança). Prepare petiscos fáceis como bolinhos de arroz (arroz integral – pode misturar um pouco de misso ou sal e cebolinha picada, para dar mais gosto – amassado nas mãos e frito em óleo ou assado no forno), bolinhas de banana com aveia (facílimas de fazer: amasse bananas maduras, misture bastante aveia, forme bolinhas, leve ao forno em tabuleiro levemente untado), biscoitões de aveia (misture aveia e água em partes iguais, um pouco de sal, deixe descansar uns dez a vinte minutos, despeje aos poucos numa frigideira ou chapa em fogo baixo, espere assar e soltar – fica crocante, uma delícia).
Eu fazia muito bolo de farinha de arroz: farinha de arroz integral (toste o arroz na frigideira seca até ficar dourado e cheirando bem, deixe esfriar, bata em pequenas quantidades no liquidificador ou use um moedor); coloque a farinha – misturada com sal ou açúcar mascavo, a gosto – numa fôrma com buraco levemente untada com óleo, ponha água até um dedo acima da farinha, deixe a farinha absorver a água toda; tampe a fôrma e asse em banho-maria, no fogão ou no forno. Estando seco e assado, desenforme e sirva.
Tudo isso, com mais uma fruta, serve para o lanche ou a merenda da escola e você pode enfeitar – juntar castanha de caju picada, passas de uva, banana-passa picadinha, pedacinhos de maçã. Use a sua criatividade.
E os almoços, jantares e festas em família? Um conselho: almoce, jante, faça uma boa refeição LOGO ANTES de sair de casa. Assim, com menos fome, a criança (e você também) não vai ficar tentada a se empanturrar de coisas que a gente preferiria que ela não comesse. Outro conselho: se a situação permitir, contribua com alguns pratos – além de você e seu filho terem o que comer, sempre se consegue mostrar aos outros que, sem carne, preparam-se refeições deliciosas.
Há, nos livros e na internet, muita receita de comida vegetariana que agrada às crianças e até para quem segue uma dieta mais naturista, sem industrializados nem açúcar refinado, dá para preparar festas de aniversário capazes de deixar coleguinhas e mães deliciados. Quem me abriu os olhos para isso foi a Sonia Hirsch, com o seu “Sem açúcar, com afeto” – esta autora também tem um livrinho só sobre alimentação para crianças. Como dizem os americanos com os seus “disclaimers”: não tenho nenhuma relação nem ligação com a Sonia e não recebo comissão sobre as vendas dos seus livros; sou apenas uma consumidora satisfeita
Beatriz Medina
Quase 30 anos de vegetarianismo
Fonte: http://www.guiavegano.com/artigos/olharverde/olharverde2.htm
http://www.guiavegano.com/artigos/olharverde/olharverde3.htm
Criança vegetariana precisa de cuidados para crescimento saudável
da Folha de S.Paulo
A frase da capa deste caderno pode não ser familiar --ou até mesmo parecer inverossímil-- para a maioria dos pais de crianças pequenas. Afinal, com tantos apelos ao paladar infantil, poucas são as que trocariam, de bom grado, um hambúrguer com cheddar ou um bife recém-saído da frigideira por um prato de verduras, legumes e cereais.
Mas quem educa os filhos no vegetarianismo garante que dá para banir do cardápio a carne e mesmo outros produtos de origem animal, como leite e ovos, sem choro e, mais ainda, sem prejudicar a saúde da criança.
De fato, na infância e na adolescência, é fundamental manter uma alimentação adequada, já que disso dependem o crescimento e o desenvolvimento saudáveis. Quando se trata de uma dieta que restringe alimentos, os cuidados devem ser redobrados.
A discussão sobre o tema fica mais evidente com o crescimento do número de adeptos: não há dados no Brasil, mas, no Reino Unido, por exemplo, estima-se que a porcentagem cresceu de 1,8% da população nos anos 80 para de 3% a 7% em 2001. No 1º Congresso Vegetariano Latino-Americano (http://www.svb.org.br/), que ocorre em São Paulo entre 4 e 8 de agosto, duas palestras abordarão especificamente a alimentação de crianças.
"As principais preocupações em relação às crianças vegetarianas se concentram no ferro, no cálcio, na vitamina B12, no zinco e, quando não há suficiente exposição ao sol, na vitamina D. Alimentos de origem animal, fontes mais ricas desses nutrientes, são muito importantes nessa fase de grande desenvolvimento", afirma a nutricionista Silvia Cozzolino, professora titular da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP (Universidade de São Paulo) e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Nutrição.
Para ela, os ovolactovegetarianos --que banem só as carnes-- correm menos risco de ter deficiência nutricional do que os veganos, também conhecidos como vegan ou vegetarianos estritos --que não aceitam nenhum produto de origem animal, como laticínios, ovos e gelatina. "Os ovolactovegetarianos ingerem mais proteínas de origem animal e cálcio, além de outras vitaminas e minerais, ao passo que as dietas mais restritas trazem mais riscos, principalmente se seguidas sem orientação."
O pediatra e nutrólogo Mauro Fisberg, coordenador clínico do Centro de Atendimento e Apoio ao Adolescente da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), diz que estudos de sua equipe mostram que os ovolactovegetarianos apresentam estado nutricional adequado "se não forem radicais". Já os veganos, de acordo com ele, teriam mais problemas.
Mas, segundo o nutrólogo Eric Slywitch, coordenador do departamento de medicina e nutrição da SVB (Sociedade Vegetariana Brasileira), estudos provam que mesmo a dieta vegana pode suprir as necessidades da infância e da adolescência. "As pesquisas que indicam crescimento insuficiente são, em geral, feitas com crianças que seguem dietas muito restritas, como certas macrobióticas que não têm qualquer variedade e que nem sempre são vegetarianas. Isso é passar fome, e não ser vegetariano."
fonte:http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u4156.shtml